Antiginástica. Se o nome já desperta curiosidade, imagine o que está por trás dele. Ferramenta criada na década de 1970, na França, não é uma terapia, um esporte, tampouco uma atividade física. Derivada da ideia de que o corpo é uma unidade, funciona como um convite para redescobri-lo enquanto grupo de fragmentos livres de regras e padrões rígidos.

Realizadas coletivamente, as sessões ajudam no despertar de funções naturais, mas que acabaram adormecidas por traumas ou regras. Executados no ritmo de cada um, os movimentos não são ensinados nem reproduzidos por quem ensina. As salas, que têm um padrão estético, também não têm espelhos. 

“O profissional não toca, não demonstra, vai apenas descrevendo os movimentos, contando uma história. A ideia é que cada um entre em contato com o próprio corpo. É um convite para acessar lembranças, memórias, machucados físicos ou algo que tenha ficado bloqueado ali”, detalha Rejane Benaduce – formadora da técnica no Brasil e em Portugal. 

Liberdade

Praticante da Antiginástica há 15 anos, a carioca explica que as sessões baseiam-se, sobretudo, na musculatura das costas. Naturalmente maior e mais forte, é também mais organizada, e, por vezes, acaba impedindo que os músculos da frente se movimentem com a mesma intensidade.

Nas aulas, os alunos são levados a movimentar olhos, boca, língua, pescoço, tronco, quadril, pernas, joelhos, tornozelos, pés, ombros, braços e mãos, como num passeio completo pelo corpo humano. Alguns resultados são aumento de tônus muscular e mobilidade, diminuição de tensões, preparação e recuperação de atividade física, além de mais consciência e liberdade para mover-se no dia a dia.

Experiência

Militar da reserva da Força Aérea Brasileira, Renny Apolinário da Silva, de 55 anos, é adepto da técnica há 1 e meio. Praticante de crossfit, pilates, yoga e corrida, ganhou consciência corporal. “Passei a dar mais atenção à qualidade do que à quantidade de exercícios. Entendi que meus limites não precisam ser buscados a qualquer preço”, revela.

Intérprete de Libras, Sônia Aparecida Leal Vítor Romeiro, 35, colheu benefícios ainda maiores. Abandonou a fisioterapia, que fazia há 4 anos, por causa de uma hérnia de disco, e sente-se mais conectada ao próprio corpo.

“Respiro e ando melhor, me canso muito menos e aprendi a respeitar minhas necessidades. De forma geral, sinto muito menos dores e também tenho mais disposição e força”, comemora.

As sessões – semanais, quinzenais ou mensais – são realizadas em grupos de cinco a oito pessoas. A recomendação é concluir o ciclo, de dez a 12 encontros, que percorre todo o corpo, tendo uma parte dele como protagonista em cada dia

Para todos 

Precursora da Antiginástica em Minas Gerais, a terapeuta corporal Jaqueline Saraiva Silva, que atende no bairro Serra, Zona Sul de Belo Horizonte, reforça que não é necessário experiência para praticá-la. Segundo ela, embora muita gente ainda procure a ferramenta como solução para aliviar ou tratar problemas físicos, a técnica francesa é benéfica para todos e em quaisquer circunstâncias. 

“Tiramos o corpo de um padrão, que tem a ver com a história de cada um, e o deixamos livre para funcionar conforme as leis naturais que o regem. São elas que nos trarão saúde, conforto, bem-estar e que o manterão equilibrado”, detalha a profissional, única habilitada em Minas Gerais.

Ela reforça, ainda, que mais do que benefícios fisiológicos, biológicos e químicos, há ganhos emocionais e mentais. “Conhecer o corpo é saber do potencial que ele tem de cura, restauração e reorganização e deixá-lo livre para movimentar. A Antiginástica não é uma terapia, mas uma ferramenta terapêutica”, afirma.

Antiginástica

MÃE E FILHA - Fisioterapeuta por formação, a francesa Thérèse Bertherat criou a Antiginástica a partir de um incômodo que sentia em relação à maneira como os corpos eram estudados, até então, na década de 1970: fragmentados – músculo por músculo, osso por osso, mas jamais na totalidade, como um conjunto. Decidiu, a partir de estudos e análises de outras terapias, tais como bioenergética, eutonia, rolfing, gestalt-terapia e medicina chinesa, desenvolver o próprio método. Autora do best-seller “O Corpo Tem Suas Razões”, deixou o legado à filha, Marie Bertherat, responsável pela Antiginástica atualmente. Outros 11 formadores multiplicam a ferramenta em cursos conduzidos no Brasil, na França, Espanha, Canadá, Alemanha, Inglaterra e Itália.

EU EXPERIMENTEI - Por Patrícia Santos Dumont

Há poucos dias, experimentei uma sessão, individual, de Antiginástica. Foi em Belo Horizonte mesmo, no único espaço – do Estado, aliás – certificado para utilizar a ferramenta. É preciso usar roupas confortáveis e estar descalço. Numa conversa rápida, a terapeuta me perguntou sobre desconfortos físicos ou lesão que eu pudesse ter sofrido, e logo partimos para a prática. Esticada no chão da salinha – um ambiente super clean, sem muitos objetos que possam causar distração – comecei a executar movimentos sutis, alguns difíceis de assimilar.

Imagine encostar os ossinhos dos tornozelos um no outro sem mover as pernas ou levantar o tronco. Difícil, né? Essa foi a primeira percepção que tive do que de fato propõe a ferramenta: descobrir e libertar o corpo para movimentos que, muitas vezes, nem sabemos como fazer. O “truque” era flexionar e levantar levemente as pernas do chão – sugeriu a terapeuta, mostrando que basta abrir mão de regras para ver o corpo fluir.

Outro “mandamento” curioso é manter os olhos sempre abertos. Mais um treino para aguçar nossa percepção plena e deixar o corpo se mover sozinho sem o forçar a nada. Para mim, uma surpresa. O aprendizado, ao final da aula, foi exatamente o mesmo que a primeira atividade promoveu. Não precisamos ficar limitados a regras que nós, nossos pais ou a rotina nos ensinaram a seguir. Ao contrário da forma como tratamos nosso corpo na academia, por exemplo, com movimentos padronizados e repetidos – por todos –, na Antiginástica a regra é não seguir regra.

É claro que uma sessão só não é suficiente para promover grandes e profundas mudanças. Mas é um ponto de partida, serve para despertar consciência. E isso já é muito! Não acham? 

Antiginástica

Praticantes são convidados a executar os movimentos sugeridos pelo terapeuta, que não os replica nem os impõe: “ter consciência do corpo é ter consciência de que se tem uma casa e de que se deve conhecê-la. Quem mora nessa casa? Como vivo aqui? O que está acontecendo nela? Não há certo nem errado”, explica Jaqueline Saraiva, precursora do método em Minas Gerais, onde atua sozinha há oito anos. Na foto debaixo, mostra a musculatura da parte de trás do corpo, que é mais desenvolvida e organizada e que, por isso, acaba deixando a da frente mais fraca

Ficou interessado e quer experimentar a Antiginástica? Confira neste link o contato e endereço de todos os profissionais habilitados para atuar com a ferramenta.

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