Há quase uma década, o pedagogo René Augusto Lopes Miranda, de 30 anos, tornou-se pai de Izabella. De lá pra cá, muita coisa mudou dentro e fora dele, que nasceu num corpo feminino, com o qual não se identificava. A jornada de redescobertas vem sendo longa e inclui desde mudanças físicas ao enfrentamento de batalhas diárias contra o preconceito, a favor do respeito e do amor. 

Ao desempenhar a paternidade da forma mais genuína possível, dando carinho e afeto à vida que trouxe ao mundo, ele, que nasceu Gabriela, prova que ser pai vai além de valores e crenças concebidos e norteados pela biologia. A paternidade baseia-se em presença e escolhas que tornam a construção de laços possível. “Posso ser homem, mulher, ter ou não barba, a ligação que tenho com ela será sempre a mesma”, resume.

O mineiro é um dentre tantos homens “fora do padrão” que ainda convivem com o preconceito de ter a paternidade colocada à prova por motivos que vão da rejeição à identidade de gênero à exigência de um “modelo” familiar tido como ideal. 

Há poucas semanas, o ator Thammy Miranda, por exemplo, sentiu na pele o peso que a transexualidade ainda impõe. Convidado pela Natura para a campanha de Dia dos Pais – data celebrada neste domingo –, sofreu uma enxurrada de críticas e foi acusado de usurpar o papel exclusivo de quem nasceu com o órgão sexual masculino.

Para René, que é também estudante de psicologia, uma interpretação equivocada de quem ainda possui valores ancorados numa cultura machista e patriarcal. “Exercer este papel é dar carinho, amor, seja enquanto trans, cis (gênero) ou gay. Nada além disso interessa”, coloca o rapaz, que cuida, sozinho, de Izabella, de 9 anos.

Pela felicidade

Outro que decidiu quebrar padrões em favor da felicidade, dele e da filha – Lívia, de 8 anos –, foi o cabeleireiro André Motta. Manteve por nove anos uma família considerada perfeita, mas, há quatro, permitiu aflorar sentimentos e desejos adormecidos na adolescência. Assumiu-se gay. O casamento foi desfeito, os vínculos com a filha, não. 

“Foi muito difícil, temia não ser aceito, mas fui vivendo, deixando as coisas acontecerem. O sentimento que temos é mútuo. Da mesma forma que desejo vê-la sempre feliz, ela espera o melhor para mim. O amor, a dedicação e a atenção são os mesmos”, garante André, que compartilha a rotina da menina com a ex-mulher.

Referência e cumplicidade

Pai solo há sete anos, quando perdeu a esposa, Maria Rute, Rodrigo Dias Malta, de 39 anos, precisou encarar o desafio de criar, sozinho, os filhos Álvaro, 10, e Thomáz, 7. Na casa dele, dividida com a avó das crianças, é regra manter um ambiente de amor e respeito, baseado, sobretudo, em cumplicidade.

“Seja pai, mãe, criado por avô ou avó, mulher com mulher, homem com homem, o que uma criança precisa é de referência. E tudo começa por ter um lar”, opina o fisioterapeuta, que inclui os garotos em todas as situações do cotidiano.

Quem também se desdobra para construir, dia após dia, uma paternidade na qual acredita é o engenheiro civil Matheus Eustáquio Menezes de Oliveira, de 35 anos. Desde o fim de 2019, assumiu a função em tempo integral ao trazer a filha, Eduarda, 10, de Salvador, onde morava com a mãe, para Belo Horizonte.

“Já escutei diversas vezes que era louco de fazer tudo sozinho, mas quando as pessoas conhecem um pouco da nossa história ficam encantadas e surpresas. A cada dia, sinto que estamos mais unidos e o quanto somos felizes juntos”, diz Matheus.

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Dia dos Pais paternidade assumida
VIDA RESSIGNIFICADA, POR DENTRO E POR FORA
Izabella foi desejada e nasceu fruto de um “combinado” entre René Augusto Miranda, na época ainda Gabriela (ele é um homem trans), e um grande amigo. Foi gestada pelo pedagogo quando ele tinha 21 anos e transformou a vida dele por completo. Embora sentisse, desde a infância, o desconforto de habitar um corpo feminino, foi só na fase adulta que o rapaz, hoje com 30 anos, despertou-se de verdade para o que acontecia dentro dele. Transexual, aos poucos, mostra por fora os reflexos do que mudou por dentro, e ainda enfrenta desafios por criar, sozinho, uma filha. “Existe muito preconceito e só percebi isso depois da transição (de gênero). As pessoas olham, fazem piadinhas e já quase parei na delegacia para explicar o porquê de estar com a minha filha. Enquanto pai, escuto muitos questionamentos do tipo ‘é isso que você quer para sua filha?’”, conta René. As batalhas são diárias, não só para criar Izabella, mas para dar a ela a chance de viver num mundo mais respeitoso. “Esses que criticam estão perdendo a criação dos filhos, o vínculo fundamental, mais preocupados se o outro tem pênis ou vagina”.

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ENTRE UMA PERDA E MUITOS GANHOS
A história de Rodrigo Dias Malta é incomum desde que começou. Conheceu a mulher, então vizinha, na porta de casa. Apaixonaram-se, casaram-se e tiveram Álvaro, de 10 anos, e Thomáz, 7. Mas quis o destino que Maria Rute partisse cedo, aos 26 anos. Após quase 30 dias de internação, em decorrência de uma infecção hospitalar contraída no parto do caçula, deixou a família, ainda em construção. De lá pra cá, a vida do fisioterapeuta sofreu uma verdadeira metamorfose. Escolheu morar com os pais e divide, ainda hoje, o teto com a mãe (viúva há três anos). Dentre tantos desafios que enfrenta, a certeza de cumprir a paternidade solo com maestria. Amor, carinho, respeito e dedicação não faltam para os dois garotos. “Criar bem vai além da biologia. O ser humano requer muito mais do que alimento. Algumas espécies mais evoluídas dão proteção aos filhotes e, depois, andam em bando. Criança quer cumplicidade dentro do lar, seja quem for que estiver neste grupo, sob esse mesmo teto. E isso exige palavras, gestos, toque, colo. Para mim, essa troca é importante, pois um dia eles crescem e isso passará”.

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DA SURPRESA À REALIZAÇÃO DE UM SONHO
Matheus Eustáquio Menezes de Oliveira ainda estava na faculdade quando soube que seria pai. O namoro de dois anos já não ia bem, e chegou ao fim. Mas aquele era apenas o começo de uma vida nova da qual nunca mais abriria mão. Assumiu a paternidade do primeiro momento até os dias de hoje. “Acompanhei toda a gestação, o pré-natal e me emocionei ao escutar pela primeira vez o coraçãozinho dela batendo”, relembra o engenheiro civil de 35 anos, pai de Eduarda, de 10. Por obra do destino, ele e a mãe da menina viveram quase sempre em cidades diferentes. Mas o sonho de ter a primogênita por perto falou mais alto e virou realidade há quase dois anos. “Segundo dia mais feliz da minha vida”, resume, lembrando a notícia de que poderia trazer a filha de Salvador – onde vivia com a mãe – para BH. Aos poucos, a história de pai e filha vai ficando mais forte, exemplo até para quem duvidou de que ele pudesse desempenhar a função sem a presença de uma figura materna. “O melhor é ter os pais presentes, e não falo em família imposta pela sociedade. O principal é o carinho que a criança recebe”.

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PAI GAY TAMBÉM É PAI
Aos 21 anos, André Motta casou-se com todas as convenções que o matrimônio exige: entrou na igreja e assinou papéis no cartório. Quatro anos mais tarde, teve a relação com a esposa coroada pelo nascimento da primogênita, Lívia, que tem, hoje, 8 anos. A perda de um segundo bebê, ainda na barriga, mexeu com os sentimentos da então esposa, que, por causa de uma depressão, teve a relação com o marido comprometida. O tempo de reflexão foi valioso para ambos. André permitiu virem à tona sentimentos percebidos, mas adormecidos, desde a adolescência. Assumiu-se gay, divorciou-se e, apesar da reviravolta, viu a paternidade tornar-se ainda mais madura e verdadeira. Pai presente, se surpreendeu positivamente com a maioria das pessoas que o conheciam no modelo de família “ideal”. Quase não sofreu preconceito nem teve o papel de pai questionado. “Quando conto a minha história as pessoas esboçam uma reação diferente, mas passa rápido. Nada mudou para mim enquanto pai. Faço terapia até hoje justamente para saber lidar com as coisas. Mas tanto eu quanto a Lívia enxergamos tudo com muita naturalidade”, conta.