Engana-se quem pensa que investir tempo e dinheiro na saúde bucal dos pets é frescura. Observar os dentes de cães e gatos – animais de estimação cada vez mais numerosos em território brasileiro – evita não só o desconforto de conviver com bafinhos desagradáveis como previne doenças graves e, muitas vezes, perigosas.

Manter uma rotina de escovação em casa, portanto, é essencial. Veterinários também recomendam incluir pelo menos outros dois métodos caseiros de higiene, recorrendo a produtos de uso tópico e petiscos que promovam fricção na gengiva. E jamais esquecer, claro, daquela visita a um especialista pelo menos uma vez por ano. 

“É muito comum donos de pets e veterinários não especialistas acharem que doenças orais não são emergenciais, mas elas devem ser prontamente diagnosticadas e tratadas para preservar dentes e a qualidade de vida dos animais”, alerta a especialista em odontologia veterinária Vívian Onofri de Oliveira, do Centro de Especialidades Veterinárias (CentroVet), em Belo Horizonte. Ela lembra ainda da importância da prevenção. 

Tudo no lugar

Vivian explica que, ao contrário do que muita gente pensa, não é comum que os pets percam dentes ao longo da vida. Isso só acontece, frisa, por falta de conhecimento ou descuido dos tutores. Em relação a gatos e humanos, cães são ainda mais predispostos a desenvolver doenças orais, em função do PH da boca – mais básico do que o nosso – e da falta de uma rotina de escovação. 

Para evitar que os três “filhos de estimação” tenham problemas, Suzana Mayre Marques Teixeira, de 65 anos, segue à risca a recomendação de levá-los religiosamente a um odontoveterinário. “Cuido como se fossem crianças. Escovo os dentes em casa com pasta especial, dou ração de grão duro (que aumenta o atrito na gengiva) e levo para limpeza completa pelo menos de seis em seis meses”, conta. 

Recentemente, a aposentada desembolsou cerca de R$ 750 com Luppy, o mais velho, de 15 anos, que fez tratamento periodontal completo. Suzana também é dona de Príncipe Júnior, de 9 anos, e de Dom, de 5, todos da raça yorkshire.

Odontologia veterinária Vívian Onofri de Oliveira CentroVet

Suzana (esquerda) leva os yorkshires dela eligiosamente ao veterinário a cada seis meses; especialista em odontologia veterinária, Vívian de Oliveira diz que consultas são fundamentais para identificar problemas ocultos

Higiene completa

Em consultório de veterinários especializados, os tratamentos orais de cães e gatos incluem, necessariamente, ultrassom, radiografia intraoral (que identifica lesões invisíveis a olho nu) e limpeza supra e sub gengivais e de polimento. 

Diferentemente da famosa tartarectomia, tratamento para remoção dos tártaros superficiais, o processo mais completo e, portanto, o único recomendado de verdade por profissionais que atuam com odontologia veterinária possibilita investigação completa da saúde bucal do pet. 

“Sempre indicamos o tratamento periodontal, feito com anestesia geral, e que é o mais completo. A tartarectomia, feita por alguns profissionais só com sedação, não é adequada, justamente por não promover essa descontaminação completa da boca”, explica Vívian.

Falta de tratamento desencadeia problemas graves e até morte

Problema que ocasiona mau hálito, dor, mobilidade e queda dos dentes, doenças orais também podem desencadear infecções graves de órgãos importantes para o funcionamento do corpo, como rins e coração, e levar à morte. 

Proprietário da Zoodonto, no bairro Serra, Zona Sul de BH, o especialista em odontologia veterinária Luiz Cláudio Sofal explica que, quando acumuladas, as bactérias causadoras da doença periodontal caem diretamente na corrente sanguínea do pet levando a enfermidades secundárias. 

“Definitivamente, cuidar dos dentes dos pets não é frescura. Além de causar desconforto e dor no animal, que sofre, as bactérias vão para a corrente sanguínea, caem no coração, levando ao desenvolvimento de endocardite, e também nos rins, podendo desencadear a perda da função renal e, assim, levar à morte”, detalha o veterinário. 

Odontologia veterinária Luiz Cláudio Sofal

Tratamento, que inclui "raio-X" completo da cavidade bucal, é feito com animal sob anestesia geral; no consultório de Luiz Sofal, no bairro Serra, 80% dos cães com mais de 7 anos têm doença periodontal

Comida não é vilã

Segundo o especialista, o maior inimigo da saúde bucal de cachorros e gatos não é a alimentação, muitas vezes à base de “comida de verdade”, mas a falta de rotina de higiene, sobretudo em casa, e de consulta com o veterinário.

Na clínica dele, 80% dos cães com mais de 7 anos apresentam doença periodontal – a mais prevalente na espécie – e cerca de 13% demandam tratamento de canal em função de fraturas nos dentes. 

Cuidados caseiros

Em casa, a dica do profissional é investir na escovação pelo menos a cada 48 horas, período que a placa bacteriana leva para se desenvolver. O produto usado deve ser específico para pets, não produzir espuma nem conter flúor, podendo, portanto, ser ingerido. O tratamento também pode ser complementado por géis e produtos de ação enzimática dissolvidos na água. 

Ossinhos de couro, por sua vez, que ajudam no atrito e limpeza da gengiva, devem ser administrados com cautela, reforça a veterinária do CentroVet, Vívian de Oliveira. “Funcionam, mas com um pouco de restrição devido à questão gástrica”, avisa.

Sorrisão saudável Pets

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