Iniciado na década de 1970, o projeto de transformar o solo completamente infértil do Cerrado brasileiro em um dos mais produtivos do país foi uma espécie de aposta de vida para o engenheiro agrônomo mineiro Alysson Paolinelli. A iniciativa do ex-secretário de Estado da Agricultura de Minas e ex-ministro da pasta, cujo objetivo era fazer com que o bioma gerasse alimentos não só para o Brasil, mas para o mundo, tornou-se tão importante que concorre hoje ao Prêmio Nobel da Paz de 2021. 

Atualmente, os 1.102 municípios do Cerrado brasileiro produzem 46% da safra de soja do país, 49% do milho, 93% do algodão e 25% do café. Na pecuária, o bioma é responsável por 32% do rebanho de bovinos, 22% dos frangos e 22% dos suínos, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Nesta entrevista, além de falar sobre outros assuntos relacionados à agropecuária, Paolinelli, de 85 anos, relata a emoção de ter sido indicado ao Nobel da Paz, na condição de protagonista de uma verdadeira revolução agrícola sustentável. Um total de 329 candidatos de todo o mundo concorrem à deferência, e o vencedor será conhecido em 8 de outubro. 

Como o senhor recebeu a notícia da indicação para o prêmio? 
Foi com muita emoção, porque a indicação partiu, principalmente, de velhos companheiros e amigos que trabalhamos juntos há mais de 40, 50 anos. Todos nós tínhamos um pressentimento de que o Brasil merecia o Prêmio Nobel da Paz. Não só porque nunca teve, mas muito mais voltado à alimentação, à garantia de suprimento alimentar ao mundo e, principalmente, que através do alimento nós sempre obtivemos a paz, a concordância e a união entre os povos. Meus companheiros de jornada acreditavam que precisaríamos de um nome e escolheram meu nome. É lógico que a emoção é muito forte. Tenho comigo a certeza que, se ganharmos, quem ganhará será o Brasil, não o Alysson Paolinelli. São seus pesquisadores; seus extensionistas; seus técnicos profissionais que nos ajudaram a montar políticas públicas; o produtor rural, fundamentalmente, que foi o grande artífice de toda essa revolução. 

O Cerrado era um solo infértil, velho; 500 mil anos mais velho do que as áreas que o mundo usava para o plantio no hemisfério temperado. Mas Rondon Pacheco permitiu que a Universidade de Lavras fizesse uma pesquisa em relação ao Cerrado

A revolução agrícola sustentável é o grande projeto que representa sua indicação?
Sim, nós conseguimos, em tempo recorde, fazer uma mudança que o mundo não esperava. As regiões produtoras eram em áreas com clima temperado e com as quatro estações bem definidas. Só que a curva da população só crescia. Os estadistas perceberam que haveria um colapso na produção de alimentos. A curva da população crescia em escala geométrica e a da alimentação em escala aritmética. E essas curvas se cruzaram em 1968, quando os Estados Unidos, que eram o país que tinha toda a riqueza, toda capacidade de abastecer o mundo, foi a público dizer que não tinha mais estoques em seus silos e armazéns por mais seis meses, que era o tempo para plantar e colher a nova safra. Aí, a coisa apertou, porque os países tropicais, todos, éramos dependentes de alimentos vindo de lá. Era mais barato comprar lá do que produzir aqui. O mundo não tinha tecnologia para as regiões tropicais. As condições de clima, de solo, de fertilidade eram muito diferentes. Em 1974, O Brasil tentou achar onde existia conhecimento para se produzir uma agricultura tropical, mas não existia no mundo. Nós precisamos desenvolver ciência, tecnologia e conhecimento, e foi isso que procuramos fazer ao desenvolver a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Com condição de governabilidade, com autonomia administrativa, técnica e financeira, onde ela pode mobilizar todas as competências nacionais, ou seja, da Embrapa, das universidades, das instituições estaduais de pesquisa e, principalmente, da iniciativa privada, todas trabalharam unidas para resolver esse problema. Era preciso criar uma nova agricultura. 

Por que foi escolhido o Cerrado?
O Cerrado era um solo infértil, velho; 500 mil anos mais velho do que as áreas que o mundo usava para o plantio no hemisfério temperado. Mas o governador Rondon Pacheco (1971/1975) permitiu que a Universidade de Lavras, no Sul de Minas, fizesse uma pesquisa em relação ao Cerrado. O cerne do estudo era provar que ele seria produtivo se fosse trabalhado. A principal incógnita era se o custo desse trabalho, dessa modificação, seria viável ou não. Quando eu fui para o governo federal, como ministro da Agricultura, já estava convicto de que tinha solução. A equipe que trabalhou já havia apresentado resultados palpáveis. Com isso, fizemos um planejamento estratégico para o país fazendo a conta inversamente, ou seja, pegamos os valores em relação à importação que o Brasil fazia de alimentos à época e descobrimos que era um terço do que consumíamos. Chegamos à conclusão de que precisávamos produzir, no mínimo, mais três milhões de hectares, com uma produtividade acima da que nós tínhamos. Esse era o grande problema! Sem profissionais treinados, não poderíamos fazer nada. Abrimos um concurso público para a Embrapa com mil vagas, mas só apareceram 52 com pós-graduação e contratamos o restante. Além disso, trouxemos das instituições estaduais de pesquisa mais 462 e demos às universidades que fizeram convênio conosco mais 100 vagas. Escolhemos os maiores centros de pesquisa do mundo com o objetivo de enviar esses profissionais para aprenderem novas técnicas. Foram para Europa, Japão, Estados Unidos com uma missão importantíssima. Ciência será aprendida lá, agora, tecnologia e inovação vão ser aplicadas no Cerrado brasileiro. Isso deu certo, essa foi a chave! Ao mesmo tempo, fomos obrigados a completar a estratégia. Criamos a Empresa Brasileira de Extensão Rural (Embrater) para fazer a transferência do conhecimento gerado para o produtor. Ciência isolada de meios de aplicação não faz desenvolvimento. Com isso, conseguimos do governo federal a garantia de produzir mais três milhões de hectares. Como em Minas Gerais nós já tínhamos feito a experiência e sabíamos que, para recuperar um hectare de Cerrado, custava US$ 1 mil, o recurso que nos foi reservado foi de US$3 bilhões. Aplicamos esse valor em cinco anos. Nesse período, o produtor brasileiro viu a Embrapa, junto com outras instituições de pesquisa, transformar uma área infértil em uma das áreas mais produtivas do país. E os produtores tiveram suporte para cercas, maquinários, sementes, energia elétrica, telefonia e toda a infraestrutura integrada para que ele pudesse exercer o seu papel de produzir eficientemente e comercializar seus produtos. Foi o maior programa de política pública agrícola que já houve no país.

Tenho comigo a certeza de que, se ganharmos(o Nobel), quem ganhará será o Brasil, não o Alysson Paolinelli. São seus pesquisadores; seus extensionistas; seus técnicos profissionais que nos ajudaram a montar políticas públicas

A revolução agrícola trouxe autossuficiência para o país... 
Nós tivemos a grata surpresa de ver em cinco anos o Cerrado produzir como os Estados Unidos. O brasileiro soube recuperar uma área que foi degradada por 500 mil anos. Um projeto nunca visto no mundo anteriormente. O mais interessante é que as vantagens comparativas dos americanos começaram a ser questionadas. Se lá eles fazem uma safra, aqui nós fazemos três por ano. Nós temos hoje tecnologia brasileira reconhecida mundialmente, como, por exemplo, a integração lavoura-pecuária-floresta, onde é feita doze meses por ano, em sucessão, três a quatro culturas, grãos, pasto para boi de corte e para pecuária leiteira e ainda a floresta que reequilibra tudo e absorve a sobra de carbono e incorpora no solo, coisa que os americanos não têm condições de fazer lá. 

Quero garantir ao Brasil e ao mundo que nós não vamos fazer o que fez a Europa, o que fez a Ásia, o que fizeram os Estados Unidos, que arrancaram vegetações nativas e plantaram indiscriminadamente

Agora a proposta do senhor é usar esse modelo em outros biomas brasileiros. 
Eu quero garantir ao Brasil e ao mundo que nós não vamos fazer o que fez a Europa, o que fez a Ásia, o que fizeram os Estados Unidos, que arrancaram toda as suas vegetações nativas e plantaram indiscriminadamente. O que eu quero aqui é que nós temos área suficiente em seis grandes biomas – Amazônico, Mata Atlântica, Caatinga, Pampas, Pantanal e o Cerrado – e, antes de entrarmos com a produção, como fizemos no Cerrado, vamos entrar com a ciência para que ela seja um indicador de limitação de onde mexer e onde não mexer, onde vamos preservar. 

Os produtores tiveram suporte para cercas, maquinários, sementes, energia elétrica, telefonia e toda a infraestrutura integrada para que ele pudesse exercer o seu papel de produzir eficientemente e comercializar seus produtos

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