Os produtores, amantes e apreciadores da “água que passarinho não bebe” têm esta semana um bom motivo para um golinho extra. É que depois de pular 2020 por causa da pandemia, está de volta ao calendário de eventos a Expocachaça, definida pelos organizadores como “a maior e mais importante vitrine mundial da cadeia produtiva e de valor da cachaça”. Marcada para acontecer de 25 a 28 de novembro, na Serraria Souza Pinto, em Belo Horizonte, a feira será o primeiro evento de grande porte aberto para o público após a flexibilização das medidas restritivas na capital. Será a 30ª edição da feira, nascida em 1998 por inspiração de José Lúcio Mendes Ferreira, seu presidente. Graduado em Turismo e Marketing, José Lúcio é um entusiasta da cachaça como bebida e como negócio. Os números batem a favor, afinal, segundo José Lúcio, a Expocachaça responde, no conjunto das 29 edições realizadas até agora, por R$ 400 milhões em negócios realizados na feira e no pós-feira, com 2,3 milhões de visitantes. Junto com a Expocachaça, acontece também a 14ª Brasilbier, voltada para o segmento da cerveja artesanal. Para consultar a programação, que inclui dois shows por dia, bem como adquirir ingressos, acesse www.expocachaca.com.br.

Nascida em 1998, a Expocachaça chega agora à 30ª edição. Como idealizador do evento, lá atrás, o senhor achava que a ideia ia tão longe? De lá para cá, quais as principais mudanças no mercado da cachaça?
A Expocachaça foi idealizada depois de duas viagens de trabalho que fiz - eu e um grupo de profissionais do setor de bebidas, de marketing, da Anpaq (Associação Nacional dos Produtores de Cachaça de Qualidade) e técnicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento -, em 1996, para a França, durante 30 dias, e depois para a Escócia, também por 30 dias. Viagens oficiais onde o objetivo era identificar como a iniciativa privada atuava e onde o governo interagia com ela buscando a sinergia necessária para o desenvolvimento do setor de bebidas, do turismo, da cultura e da gastronomia. Tivemos a oportunidade de visitar complexos turísticos e roteiros da bebida, tanoarias, destilarias de whisky, cognac,vinho champagne,  laboratórios , universidades, órgãos de governo, entre outros. Voltando para o Brasil, em 1998 criei a Expocachaça como vitrine da cadeia produtiva do setor. De 1998 para 2021, 23 anos e 29 edições depois, os números falam por si: 2,29 milhões de visitantes em suas 29 edições (sete em São Paulo), R$ 400 milhões em negócios realizados na feira e no pós-feira e R$ 114 milhões em mídia espontânea.

A Expocachaça está sendo considerada o primeiro evento de grande público após os quase dois anos de restrições sociais, por causa da pandemia. Qual a expectativa dos organizadores?
A melhor possível: muita alegria no coração , otimismo e confiança. Aliás, otimismo é esperar pelo melhor. Confiança é saber lidar com o pior, segundo Roberto Simonsen. Depois de dois anos parados e invisíveis, estou chamando os eventos de “a retomada”. Nestes dois anos, fizemos um percurso complicado. Programado para acontecer no início de junho de 2020, veio a pandemia, adiamos para agosto de 2020, pois o hospital de campanha do governo foi instalado no Expominas. As informações que dispunhamos é que ele sairia em julho, não saiu, então mudamos a data para novembro de 2020, mas não pudemos fazer, pois os eventos continuavam suspensos. Passamos o evento para abril de 2021 e mudamos do Expominas para a Serraria Souza Pinto, mas, de novo, os eventos não foram autorizados. Passamos para junho, não deu, passamos para outubro. Na Serraria ainda tinha um contrato para abrigar os moradores em situação de rua, que sairiam em setembro. Achamos melhor transferir para novembro de 2021, quando também teríamos a maioria da população vacinada. E o mais importante: não perdemos um só expositor e nem os patrocinadores. Reduzimos o tamanho do evento e alguns expositores optaram por participar da Expocachaça em 2022.

Em relação às medidas sanitárias, o que a organização está orientando tanto para o público expositor como para o visitante?
Uso de máscara, álcool em gel, medição de temperatura na entrada e só no momento de  alimentar e beber é autorizado a retirada da máscara.

Sabemos que na pandemia houve uma quase imediata mudança de hábitos, com o consumo de bebidas alcoólicas migrando da rua para dentro de casa. De que forma essa mudança impactou no mercado da cachaça?
Com o fechamento dos bares e restaurantes, onde ocorria 70% do consumo de bebidas alcoólicas, a situação ficou crítica. Os números do setor de bares, restaurantes e similares no Brasil à época: 348 mil restaurantes e similares, 226 mil bares e outros, 90 mil pontos de autosserviço no varejo e 1.300 pontos de atacarejo. Os cálculos das perdas indicam que 40% dos bares e restaurantes fecharam definitivamente durante o período inicial da pandemia. Com o fique em casa e isolamento social, cresceu muito a tendência do “um bar em sua casa” e o consumo de bebidas alcoólicas nas residências cresceu mais de 40%, no caso da cachaça, e mais de 90% para o vinho. O mercado de bebidas alcoólicas no Brasil é estimado em R$ 137 bilhões em 2019 e R$ 141 bilhões em 2020. Dos destilados, a cachaça tem um market share de 86%.

Minas ainda manda no mercado da cachaça? Qual a participação do Estado nos números globais do mercado?
Minas lidera o setor de cachaça de alambique no Brasil com cerca de 44% do mercado, segundo dados do anuário estatístico do setor de cachaça. Repetindo o que aconteceu em 2018 e 2019, o Estado de Minas Gerais ocupa a primeira posição, sendo que o número de produtores registrados é quase o triplo do segundo colocado, São Paulo. Mais uma vez, evidenciou-se a concentração da produção de cachaça na região Sudeste, com 622 estabelecimentos registrados, sendo que Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro juntos concentram aproximadamente 70% dos produtores de cachaça registrados. Os dez Estados com mais estabelecimentos produtores de cachaça registrados são: Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraíba, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Bahia. Interessante observar que todos os Estados das regiões Sudeste e Sul aparecem nas dez primeiras posições.

Qual o tamanho do mercado da cachaça? E qual o perfil predominante do público consumidor de cachaça? Jovem ou mais velho? Só homens ou as mulheres já têm presença significativa? O que se sabe sobre isso?
O Brasil produz cerca de 1,4 bilhão de litros por ano e exporta cerca de 0,5% a 1% de sua produção para 70 países. Segundo dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), de 2018, no Brasil, 62% do consumo de bebidas alcoólicas é de cerveja, sendo 35% de destilados e 3% de vinho. Dos destilados consumidos, a cachaça participa com 68%. O consumo per capita de bebidas alcoólicas no Brasil: 21,4% da população nunca ingeriu bebidas alcoólicas, 40% consumiram nos últimos meses. Ainda: 73% são homens, 27% são mulheres. O consumo estimado em 2016 é de 7,8 litros per capita, sendo 13,4 litros por ano o consumo dos homens e 2,4 litros por ano o consumo das mulheres. O consumo brasileiro está abaixo da média da região das Américas, que é de 8 litros de álcool puro per capita, e acima da média mundial, que é de 6,4 litros per capita anual.

Falando agora de exportação. A cachaça de Minas (e do Brasil) já ganhou o mundo ou ainda tem muito trabalho pela frente? Quais os números da cachaça no campo da exportação?
Nós exportamos uma gota de álcool. Entre 0,5% e 1% do que produzimos anualmente, entre 10 e 14 milhões de litros. Ou seja: muito pouco e ainda mais quando é diluído entre 70 a 80 países.

Como um pesquisador do universo da cachaça, o senhor acredita que a cultura em geral já assimilou a bebida de uma forma mais natural ou ainda há muito preconceito? Exemplos: a associação da bebida com a negligência e o alcoolismo, adjetivações pejorativas como “cachaceiro” ou “pinguço”...
O preconceito em relação às bebidas alcoólicas historicamente ocorreu em todos os países, com o whisky, a vodca entre outras. No Brasil, com a cachaça, não poderia ser diferente. Mas hoje a cachaça já saiu da senzala e conquistou a casa grande, E, se a bebida fosse ruim, Jesus Cristo não teria transformado água em vinho em seu primeiro milagre nas Bodas de Caná.

A cachaça sofre de alguma forma com a concorrência de bebidas de fora que volta e meia chegam ao país, como foi há algum tempo com a vodca e agora com o gin, por exemplo?
A concorrência sempre existe nesse mercado e o gin agora entrou dentro da onda das bebidas craft, que cresceu muito nos Estados Unidos e alguns países da Europa, mas a cachaça também é uma bebida craft. Segundo a empresa de pesquisas Euromonitor, alguns cenários vão impactar o consumo de bebidas, com as decisões de compra passando a ser mais racionais e menos por impulso. O tripé do processo de decisão de compra é: orçamento disponível, real necessidade do item, percepção do valor agregado, onde comparação de preços ganha importância. Menos abertura para experimentação. O consumidor diminui gastos com lazer e alimentação fora do lar e o consumo dentro do lar, uma alternativa para bares e restaurantes. Consumidores passam mais tempo dentro dos lares e buscam replicar a experiência de lazer e alimentação dentro de casa. Marcas com posicionamento claro e qualidade ou custo benefício saem na frente.

Há uma briga no mercado entre cachaça raiz e cachaça nutella? Ou seja, entre a cachaça tradicional, com embalagem e rótulo simples, e aquela gourmetizada, entregue em caixas refinadas e caras? Ou a convivência entre os diferentes tipos é pacífica?
São nichos de mercado diferentes.

Como diferenciar uma boa cachaça de uma cilada?
O importante é beber uma cachaça que esteja registrada no Ministério da Agricultura e regularmente no mercado. Essa cachaça barata, da "roça", é um grande perigo para a saúde dos consumidores. Alguns dias atrás, a Polícia Civil e o IMA (Instituto Mineiro de Agropecuária) prenderam um falsificador de bebidas alcoólica que estava desdobrando álcool combustível para vender com cachaça.

Que conselhos daria para quem quer empreender no mercado da cachaça?
Segundo Derek Thompson, em seu Livro ‘Hit Makers”: "Conteúdo pode ser o rei, mas a distribuição é o reino". Não basta ter um bom produto se ele não estiver nos pontos de vendas e, para que isso aconteça, é preciso investir em estratégias, táticas e processos de marketing, vendas e distribuição e na formação de hábitos de consumo.

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