Edifício icônico de BH, a Biblioteca Pública Estadual tem colecionado muito mais do que livros, histórias e saberes. Há um mês, segundo vizinhos, o prédio na Praça da Liberdade, na região Centro-Sul, também se tornou um abrigo potencial para focos do mosquito Aedes aegypti.

Recipientes que acumulam água, como tonéis, latas e até capacetes, destampados no terraço do imóvel, reforçam o mau exemplo do poder público. 

No período, a cidade enfrentou chuva e altas temperaturas – combinação favorável à proliferação do inseto que transmite dengue, zika e chikungunya. “As autoridades veiculam propaganda para alertar a população sobre os perigos das doenças, mas não fazem a própria parte. Fiz a reclamação na PBH, mas, passados sete dias, nenhuma providência foi tomada”, contou o advogado Alexandre Colares, de 35 anos.

Ele, que mora perto da biblioteca, teme contrair dengue. Só em 2019, mais de 484 mil casos prováveis (suspeitos e confirmados) da doença foram registrados em Minas.

Casa dos livros e ninho da dengue

Materiais no terraço do prédio público estão sendo usados por trabalhadores na reforma da edificação

Obras

Os materiais encontrados no prédio estão sendo utilizados por operários na reforma do espaço, informou a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA). A obra deve terminar ainda neste ano.

“Desde maio (a intervenção) vem sendo acompanhada. Sempre fiscalizamos a área e orientamos para que os riscos de (surgimento de) focos do Aedes sejam minimizados”, disse Eduardo Viana, diretor de Zoonoses da pasta. Segundo ele, uma equipe de combate à endemias esteve no local na tarde desta quinta-feira (14) para mais uma vistoria e constatou que lá não estava abandonado. 

Em nota, a Secretaria Estadual de Cultura e Turismo (Secult) garantiu que, após solicitação do Hoje em Dia, recolheu os recipientes que se encontravam com água nas imediações da Biblioteca Pública. “A limpeza foi devidamente efetuada”.

Medo

Frequentadora assídua da Biblioteca Pública Estadual, a aposentada Luíza Helena Silva Lopes, de 71 anos, declarou que vai redobrar as atenções antes de ir ao espaço. 

“Agora, só com uso de repelente. Cada pessoa tem que fazer a sua parte, mas o próprio Estado está deixando a desejar”, disse a idosa, ao saber do risco de o espaço ser um criadouro do mosquito.

Fala endossada pela vendedora Ana Sirley de Souza Aguiar, de 46 anos, que trabalha nos arredores. “Os órgãos públicos não estão dando o exemplo que deveriam”, afirmou.

Prevenção reforçada especialmente em obras

Virologista da UFMG, Flávio Fonseca destaca que os cuidados para evitar a proliferação do Aedes devem ser reforçados especialmente em obras. “Esses locais têm contêineres e lonas que acumulam água. Principalmente no período de chuva, o risco é bem maior”, alertou.

O especialista explica que o mosquito já está adaptado ao meio urbano e, por isso, as vistorias devem ser intensificadas. Segundo ele, quanto maior o recipiente, mais água vai armazenar e maior o tempo para se evaporar. “Isso aumenta o perigo de reprodução do inseto”, disse.

O diretor de Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde, Eduardo Viana, garante que a pasta atende às solicitações dos cidadãos em até dez dias, após a reclamação. “Acontece que, muitas vezes, a queixa é feita no setor errado. Até chegar ao órgão correto, pode demorar um tempo”, admitiu.

Já a Secretaria Estadual de Saúde (SES) disse não ter competência para fiscalizar prédios públicos, mas frisou que desenvolve diversas medidas para controle das doenças transmitidas pelo Aedes.

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