Após afirmar pelo Twitter, no sábado (3), que não cumpriria a determinação do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), que decidiu liminarmente no mesmo dia pela liberação da realização de celebrações religiosas presencialmente, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), afirmou, em entrevista à rádio Bandeirantes de São Paulo, nesta quarta-feira (7), que se arrepende da fala e que, em uma democracia, a obediência ao STF é essencial.

A polêmica foi relembrada pelo chefe do Executivo municipal em entrevista com o jornalista José Luiz Datena. De acordo com Kalil, embora a gestão municipal discorde da decisão do STF, sobretudo devido à situação crítica no combate à pandemia na capital, a determinação será cumprida em respeito à democracia brasileira.

"Como se vai para uma ditadura hoje? Não se põe mais o Exército na rua. Hoje se minam as instituições, o Legislativo, o STF, vão minando-se os poderes para chegar à ditadura. Foi assim recentemente nos países que têm ditadura hoje. Eu errei, reconheço meu erro, de tentar desobedecer uma ordem por eu achar desrespeitosa ao próprio Supremo", afirmou.

Kalil justificou a fala ao relembrar que, em abril de 2020, foi o próprio STF que deu autonomia a governadores e prefeitos para determinar medidas restritivas nas localidades por eles comandadas, incluindo ações como suspensão de atividades e serviços nas localidades. Segundo Kalil, essa "responsabilidade e carga desumana de cuidar de uma cidade muito grande sozinho" foi aceita e cumprida por ele.

"Então, como que depois de um ano e dois meses lutando bravamente, acabando com a minha saúde, do meu secretariado, com todo mundo esgotado de trabalhar [...], o que se faz? Podemos aglomerar à vontade? Joga lá para o pessoal da Saúde que eles resolvem?", criticou. Conforme o gestor, "é minimamente irresponsável você dizer que você pode aglomerar e que você pode jogar todo mundo dentro de um sistema [de saúde] absolutamente saturado no Brasil inteiro".

STF julga determinação nesta tarde

O plenário do STF julgará a decisão liminar de Nunes na tarde desta quarta-feira (7). Ainda em entrevista, Kalil afirmou esperar que o Supremo mantenha a proibição de realização de missas e cultos com presença de público. Nessa terça, a Arquidiocese de BH informou ao Hoje em Dia que manterá as igrejas fechadas. Em contrapartida, o plenário da Câmara Municipal de BH aprovou, em primeiro turno, a inclusão dos tempos na categoria de serviços essenciais.

"Eu espero que o STF mantenha o que ele delimitou para ele não jogar todo o nosso trabalho de ano, de esforço, de saúde, de distanciamento, jogue tudo para água abaixo. Eu tenho certeza que eu não tenho certeza de nada, porque a decisão é deles, mas eu acho que isso vai cair", disse Kalil.

O gestor afirmou, novamente, que qualquer decisão do STF será cumprida pela prefeitura da capital. "O ministro deveria visitar uma UTI antes de liberar cultos. Mas nós todos precisamos e necessitamos respeitar a decisão para a garantia do nosso regime democrático", disse, afirmando não ter pendências com o STF e, portanto, ter liberdade para opinar sobre o tema.

"Temos que fortalecer e, concordando ou não, [o STF] é um dos grandes pilares da nossa liberdade e da nossa democracia. E, olhe, eu não tenho acusação no STF. Não estou pendurado, não. Estou falando como cidadão brasileiro. Como brasileiro e cidadão, nós todos temos que ficar muito atentos: por mais horrorizantes que sejam algumas decisões, já que são humanos, o erro é humano; o respeito ao STF é fundamental para a nossa democracia", afirmou.

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