Lotes abandonados em BH tornam-se criadouros do Aedes; a cada dez, sete apresentam riscos

Malú Damázio
29/04/2019 às 08:20.
Atualizado em 05/09/2021 às 18:26
 (Riva Moreira)

(Riva Moreira)

Sete em cada dez lotes vagos vistoriados por fiscais da capital colocam a saúde da população em risco. Entulhos encontrados nos terrenos, como garrafas, sacolas e recipientes plásticos, são capazes de acumular água parada e favorecer a proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. O cenário de abandono pode agravar a epidemia enfrentada em Belo Horizonte, que já registrou mais de 25 mil notificações da doença.

Até abril deste ano, 3.803 fiscalizações foram feitas e 2.778 irregularidades constatadas. A lei obriga o proprietário a manter o local limpo e cercado. Mas encontrar exemplos do descaso não é difícil.Na rua Passiflora, no Barreiro, um lote íngreme acumula papelão e vasilhas de plástico com água parada. O proprietário do terreno foi intimado em março, mas ainda não fez a limpeza. Ele não foi encontrado pela reportagem.

Segundo o vendedor Edson Leite, de 39 anos, há cerca de uma década o local está vazio. “Moro aqui há anos e nunca veio ninguém capinar. O morador abandonou, aí o pessoal passa, vê a situação e deposita de tudo”, conta. O empresário Sebastião Pereira, de 62, tem uma loja na rua e lembra que a prefeitura já chegou a vistoriar o terreno em outras ocasiões. “A gente não precisa nem entrar no mato para ver o lixo que o povo deixa. É complicado porque a gente cuida do nosso terreno, mas os vizinhos não tomam o mesmo cuidado”, afirma Sebastião.

Outra situação de descaso acontece na rua Maria Conceição Bonfim, no bairro Goiânia, região Nordeste. A vegetação e as árvores já tomaram de toda a parte inferior do íngreme terreno. Moradores do entorno contam que no topo, onde havia uma casa, agora existem apenas entulhos, que acumulam água, mosquitos e animais peçonhentos. “Já acharam até uma cobra saindo desse lote. Pessoal fica com medo de passar perto.

Quando o mato estava mais baixo, subi para pegar mangas e dei de cara com o lixo e os restos da casa demolida”, lembra o vendedor Lucas Maia, de 18 anos.

À venda

Já no bairro Heliópolis, na região Norte, um terreno à venda também chama a atenção de quem passa pela rua. O lote está capinado, mas sacolas plásticas e outros entulhos, além de uma espécie de tanque com água para cavalos que estão no local também podem oferecer risco. Em contato com o telefone fixado no anúncio, a equipe de reportagem do Hoje em Dia procurou o proprietário.

Na ligação, uma pessoa que se identificou como corretor de imóveis explicou que o terreno havia sido limpo no ano passado, mas não saberia informar se o dono já tinha sido multado por falta de manutenção. Ela disse ainda que tentaria o contato do responsável para prestar esclarecimentos, mas não retornou até o fechamento desta edição.

Descaso também favorece o contágio de outras doenças 

A sujeira nos terrenos abandonados deve ser tratada como um problema da saúde pública, destaca o epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Marcus Vinícius Polignano. Não bastasse o risco da dengue, o descaso também é um prato cheio para outros animais transmissores de doenças, como ratos, pombos, moscas e escorpiões. 

Segundo ele, é preciso investir em tecnologias, como o uso de drones, para uma vigilância mais efetiva. “Com um aparelho desses, é possível verificar se o local está acumulando água e estabelecer prioridades para intervenção. O que é previsível tem que ser prevenido, precisamos nos antecipar aos problemas”, observa.

Já o engenheiro sanitarista Hiram Sartori, coordenador do curso gestão em resíduos sólidos, da PUC Minas, lembra a necessidade de a população fazer a parte dela. A sujeira, não raro, é provocada por moradores da própria região, lembra o especialista. “A falta de cuidado estimula o lançamento de resíduos. Isso faz com que a água empoce, o que pode ser positivo para o desenvolvimento de focos do mosquito”.

Conforme a Secretaria Municipal de Política Urbana, os donos de espaços abandonados são notificados e têm um prazo de 15 dias para se readequar. Quem insistir em manter o terreno sujo é multado em R$ 2,2 mil. A limpeza forçada, sem anuência do proprietário, é feita em “casos graves”. No entanto, a pasta não detalhou quais são os critérios adotados nessas situações. Quem é flagrado jogando lixo em local inadequado também pode ser punido. Os infratores estão sujeitos a multas que variam de R$ 192 a R$ 5,7 mil. 

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