Há exatos 300 dias, em 25 de janeiro de 2019, a cidade de Brumadinho, a cerca de 50 km de Belo Horizonte, tornava-se mundialmente conhecida por um motivo realmente ruim. Definitivamente não era pelo Inhotim, um dos maiores parques de arte a céu aberto do planeta e instalado na cidade; ou pela culinária simples e própria, incluindo as paisagens montanhosas do município.

Brumadinho ganhava os olhares atentos após o rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão, da mineradora Vale, que matou, até o momento, 254 pessoas e ainda mantém outras 16 desaparecidas. Tal situação, como afirma relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pela Câmara de Deputados para investigar o caso e apresentado no início do mês, configura-se como crime ambiental - ao invés de tragédia ambiental.

"(...) não restam dúvidas de que o crime de Brumadinho foi ocasionado pela omissão daqueles que, no exercício de suas atribuições profissionais, tinham conhecimento da condição de instabilidade da barragem B1 e, conquanto pudessem, não adotaram quaisquer providências para tentar evitar a perda de vidas e os danos ao meio ambiente". O relatório sugere o indiciamento de funcionários e executivos da Vale.

Nesta quarta-feira (20), data em que refletimos o Dia da Consciência Negra, o Brasil relembra o inesquecível. Na área devastada, 101 militares do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, em 20 frentes de trabalho, além de dois cães, um drone e 176 maquinários, são empregados, faça chuva ou sol, na busca de restos corporais de vítimas. A corporação foi procurada para falar sobre a atuação nesses 300 dias e qual será a estratégia até a localização das 16 vítimas restantes, mas ainda não retornou.

Em seguida, vem o trabalho de identificação dessas partes biológicas quase decompostas pelo Instituto Médico Legal (IML). No momento, 103 segmentos estão em análise na instituição, na capital.

São 300 dias de buscas, da tragédia, e ninguém preso. Não bastasse, Minas Gerais tem outras 25 barragens em alerta por riscos, inclusive de desabamento. Os números foram apurados em relatórios da Defesa Civil estadual.

Para Maria Tereza Corujo, ambientalista do Movimento pelas Serras e Águas de Minas e ex-conselheira do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio das Velhas, chegamos aos 300 dias sem concretização de prisões e com indenizações que estão colocadas em risco, já que a empresa "tenta tudo com o seu exército de advogados para pagar o menos possível" às vítimas. 

Além disso, os danos ao meio-ambiente são gigantes, na opinião da especialista. "Há falta d'água em Brumadinho. Poços subterrâneos, com água de alta qualidade, são explorados emergencialmente após o rompimento. Estamos vendo secarem nascentes e cursos d'água que normalmente tinham água", afirma. 

Segundo ela, as outorgas de águas superficiais e subterrâneas deveriam ser suspensas pelas autoridades e a retomada da atuação na Mina da Jangada, pertencente ao complexo do Feijão, precisaria ser repensada após tantas perdas causas à região.

Em notas, a Vale afirmou que, em Brumadinho, trabalhava com "uma equipe de geotécnicos composta por profissionais altamente experientes e de reconhecida capacitação para tratar de questões referentes à manutenção da barragem B1" e que "todas as informações disponíveis sobre o histórico do estado de conservação da barragem foram fornecidas às autoridades que apuram o caso". 

Além disso, a empresa disse que "respeitosamente discorda da sugestão de indiciamento de funcionários e executivos da companhia". "A Vale considera fundamental que haja uma conclusão pericial, técnica e científica sobre as causas do rompimento da barragem B1 antes que sejam apontadas responsabilidades".

Por fim, declarou que ela "e seus empregados permanecerão colaborando ativamente com todas as autoridades competentes e com órgãos que apuram as circunstâncias do rompimento". A Vale foi procurada para comentar os 300 dias do rompimento. 

Que em 25 de janeiro de 2020 as notícias sejam outras.

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