Cristiano Gomes, uma das vítimas de intoxicação por substâncias tóxicas encontradas em cervejas da Backer, e a esposa dele, se internaram, na tarde desta segunda-feira (28), no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, para realização de transplante de rim.

A cirurgia, que será feita nesta terça-feira, via Sistema Único de Saúde (SUS), deverá devolver qualidade de vida ao professor, que tem 47 anos e sofre com a perda da capacidade renal após a intoxicação. Nos últimos meses, Gomes precisou realizar 10 horas diárias de hemodiálise.

"Eu não sabia o quanto a doença renal é limitante, é pesada. Ele fica 10 horas todos os dias ligado à máquina", afirmou Flávia Schayer, de 48 anos, esposa de Cristiano e doadora do rim direito ao marido.

A mulher, que tem o mesmo tipo sanguíneo de Gomes (O+), realizou exames que comprovaram a compatibilidade para o transplante. Schayer comemorou a possibilidade de ver a qualidade de vida do marido melhorar.

"Estou com o coração muito feliz. É a maior honra do mundo. Estamos de verde para divulgar o mês de incentivo à doação de órgãos. Queremos tirar alguma coisa de bom dessa tragédia", afirmou a mulher.

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Flávia doará o rim direito ao marido

A cirurgia

De acordo com Ricardo de Castro Gontijo, médico responsável pela operação, o transplante foi o método mais eficaz encontrado para o caso. Isso porque a intoxicação causou sequela irreversível aos rins do paciente, que passou por tratamento para resgate da função renal, mas sem sucesso.

"O transplante se mostra uma terapia mais eficaz, mais duradoura, com maior expectativa de vida e qualidade de vida", explicou o especialista, que já realizou mais de 2 mil cirurgias do tipo na carreira.

Ainda conforme Gontijo, as cirurgias de Cristiano e Flávia serão realizadas ao mesmo tempo, em salas lado a lado, com aplicação de anestesia geral e duração estimada entre 1h30 e 2 horas.

Segundo ele, o rim transplantado de doador vivo geralmente tem funcionamento imediato, mas há casos em que há um atraso de alguns dias para o inicío das funções. Em geral, os índices de sucesso do transplante de rim superam 97%.

"A expectativa é muito boa, positiva, com o intuito de poder ajudar uma família que está passando por tanta dificuldade neste ano e está conseguindo vencer, com um empenho muito grande de todo um time que está acompanhando eles", afirmou o médico. 

Vida normal

De acordo com o urologista Marco Túlio Lasmar, integrante da equipe de transplante de Cristiano, a esposa da vítima terá um período de recuperação e, em seguida, provavelmente uma vida normal.

"Vive-se bem com um rim só. Tem que ter cuidados com alimentação, atividade física, mas nada de especial. O recomendado é fazer um controle periódico anual com médico para cuidar", disse.

Caso Backer

O inquérito aberto pela Polícia Civil de Minas Gerais sobre o caso Backer foi concluído em junho deste ano. De acordo com o corporação, pelo menos 29 pessoas foram intoxicadas e sete morreram devido ao problema. A polícia descartou a hipótese de sabotagem.

No mês passado, o relatório final do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) sobre o assunto informou que a contaminação em tanques de cerveja da Cervejaria Backer acontecia desde janeiro de 2019.

Segundo o Mapa, ficou constatado que as substâncias tóxicas monoetilenoglicol (MEG) e dietilenoglicol (DEG) não estavam restritas a lotes que passaram por um determinado tanque, e também foram detectadas em bebidas produzidas anteriormente à sua instalação.

Ainda em agosto, a Backer divulgou a contratação de uma empresa mediadora de conflitos para "minimizar os sofrimentos e buscar uma solução capaz de trazer conforto e paz para todos".

A reportagem entrou em contato com a Backer para falar sobre o transplante de Cristiano Gomes e o andamento do processo e aguarda um retorno.