A decisão da família de doar os órgãos do rapaz de 20 anos que morreu vítima das agressões de integrantes da maior torcida organizada do Cruzeiro, em uma emboscada do ônibus em que o atleticano estava, no dia 28 de novembro último, levanta a discussão sobre o drama de quem precisa de um transplante para sobreviver. 

De acordo com  MG Transplantes, unidade da Fundação Hospitalar de Minas Gerais responsável pela coordenação da política de transplantes de órgãos e tecidos no estado, uma das maiores dificuldades para a captação é a orientação das famílias. A taxa de recusa, que antes da pandemia girava em torno de 30%, aumentou muito com a chegada da Covid-19 e permanece próxima dos 50%. 

“O acolhimento hospitalar para reduzir as negativas foi impactado pelos protocolos sanitários estabelecidos para fazer frente à covid-19, e isso refletiu no comportamento das famílias doadoras”, explica o cirurgião e diretor do MG Transplantes, Omar Lopes Cançado. 

Até outubro, foram realizados 1.310 transplantes em Minas, mantendo uma trajetória de queda no contexto da pandemia. Outro fator que impactou o número de procedimentos realizados foi a exclusão de todos os prováveis doadores que apresentavam algum sintoma gripal, para reduzir a chance de disseminação do coronavírus.

Segundo o diretor do MG Transplantes, para que o Brasil alcance resultados melhores é necessário que, junto com o crescimento da adesão familiar às doações, a identificação do potencial doador seja aprimorada. Para isso, todos os municípios deveriam ser capazes de realizar o protocolo de morte encefálica, o que não acontece em diversas cidades brasileiras, devido à falta de equipamentos e de especialistas.

Ao mesmo tempo, continua Omar Cançado, todos os hospitais também deveriam ser capazes de notificar o diagnóstico de morte encefálica às centrais de captação de órgãos, mas isso não ocorre. “Grande parte dos hospitais ainda não notifica. De modo geral, a notificação é muito aquém do que deveria”, lamenta o diretor.

Em Minas, por exemplo, a notificação é de 30 por milhão de população. O ideal é que fosse de, aproximadamente, 100 por milhão. Do mesmo modo, o número de doadores por milhão de população também fica bastante distante do ideal. Na Espanha, país que, ao lado dos Estados Unidos, serviu de modelo para o sistema brasileiro de transplantes, há 40 doadores por milhão de habitantes. Em Minas, esse número, atualmente, é de 10 doadores por milhão. Antes da pandemia era de 14 por milhão de pessoas.

*Com informações da Agência Minas

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