Chamada por especialistas de "chuva de mil anos", a tempestade que atingiu Belo Horizonte e deixou um rastro de caos nesse domingo (19) teria causado os mesmos estragos independentemente da estrutura da cidade. A afirmação é do prefeito Alexandre Kalil (PSD) que, em coletiva na tarde desta segunda-feira (20), ainda informou que BH vai decretar situação de emergência pelos danos na avenida Teresa Cristina.  

A decisão foi tomada após reunião realizada nesta segunda para discutir a solução para os estragos. O decreto deve ser publicado nesta terça-feira (21) e, com ele, a PBH vai poder receber recursos emergenciais do governo federal e destiná-los para obras de reparação sem a necessidade de licitação, agilizando assim a recuperação dos espaços atingidos.

Reiterando que os estragos de domingo aconteceriam mesmo com a capital tendo uma estrutura adequada, o prefeito fez questão de repetir a afirmação que fizera no ano passado: “O problema e a culpa continuam sendo do prefeito, porém, ele tem o direito de se defender”.

O coronel Alexandre Lucas, secretário Nacional de Defesa Civil, participou da reunião desta segunda e declarou que a pasta está empenhada em apurar e mitigar os danos causados pelas chuvas não só em BH, mas no país inteiro.

Tanto o coronel Lucas quanto o coronel Waldir Vieira, da Defesa Civil municipal, afirmaram que a chuva que atingiu BH no domingo é um fenômeno raro conhecido como "chuva de mil anos", devido ao grande intervalo de tempo entre uma ocorrência e outra. Segundo Lucas, estatísticas mostram que os mais de 100 milímetros que caíram sobre BH no domingo, e em apenas 40 minutos, não devem se repetir na cidade tão cedo. "Quando uma cidade faz um projeto para bocas de lobo ou de rios e galerias, ela analisa a recorrência de chuvas, de 100, de 50 anos, para dimensionar. Nenhuma cidade usa mil anos para fazer esse projeto", explicou.

Assistência

Segundo o coronel Waldir, o número de famílias desabrigadas e desalojadas ainda não foi fechado, mas a estimativa é de que mais de 150 famílias tenham sido atingidas. "A maioria das pessoas não teve a casa destruída a ponto de precisar de remoção. Agora, o que está sendo feito é um trabalho de limpeza e eles estão recebendo assistência humanitária pelos postos de comando", declarou.

A ação da Defesa Civil de BH foi citada como exemplo pelo coronel Lucas, que já comandou o órgão antes de ir para o governo federal. "Existe um estoque de preparação e permite a distribuição de colchões, cobertores, cestas básicas. E BH é um exemplo de Defesa Civil, inclusive com a participação do Restaurante Popular", sustentou.

Obras

O superintendente da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap), Henrique Castilho, também esteve na reunião e defendeu a ação da prefeitura contra os alagamentos que assolam a cidade no perído chuvoso. "Se a gente não tivesse a bacia do túnel Camarões, que retém 300 milhões de litros de água, a situação seria muito pior na Teresa Cristina", declarou.

Outro ponto destacado no pronunciamento do prefeito foi a necessidade das obras no córrego Ferrugem, em Contagem. A intervenção prevê a construção de três bacias de contenção, que seriam capazes de impedir o transbordamento comumente visto na avenida Teresa Cristina. "O mais grave da Teresa Cristina é que a solução não vem de BH, vem de Contagem. Sabemos que a prefeitura de Contagem está em situação difícil. O projeto foi apresentado em 2013 e está parado no Estado e Contagem não tem condições de executar", afirmou Kalil. 

Em nota, o governo de Minas justificou dizendo que a obra é uma parceria entre município e Estado e relembrou a situação financeira de Minas. "Os recursos federais não são suficientes para a execução da 2ª etapa do empreendimento, que inclui a implantação de bacias de detenção de cheias, interceptores e sistema viário, além da construção de 336 unidades habitacionais para abrigar as famílias removidas das regiões atingidas", diz o posicionamento.

A prefeitura de Contagem ainda não retornou o contato.

Segundo o superintendente da Sudecap, desde 2017, quando a gestão atual começou, já foram investidos R$ 1,3 bilhão em obras de infraestrutura. Para este ano, estão liberados outros R$ 22 milhões. A obra na Vilarinho tem o projeto básico com entrega prevista para março deste ano. A primeira fase, que é a de obras, deve ser licitada ainda no primeiro semestre, segundo ele.

Histórico

As chuvas deste mês já superam a média histórica de janeiro em Belo Horizonte, que é de  329,1 milímetros (mm). Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), só até esse domingo (19), o acumulado foi de 492,1 mm, chegando perto do ano de maior registro de precipitações deste período, em 2004. No primeiro mês daquele ano, o acumulado foi de 502,9 mm e, até o final desta semana, o índice deve ser superado.

O motorista que trafega pela cidade deve ter paciência e atenção redobrada. A forte chuva de domingo deixou estragos em Belo Horizonte e Contagem, na Grande BH. A Defesa Civil da capital pede aos motoristas que evitem trafegar pela avenida Teresa Cristina, na região Oeste; e pela avenida Tito Fulgêncio, em Contagem. Os locais estão passando por limpeza e recolhimento de entulhos com o uso de equipamentos pesados.

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