Organização elogiada, educação da população criticada, polêmicas e manifestações políticas. A Virada Cultural em Belo Horizonte foi aprovada por quem frequentou as mais de 400 atrações entre as noites de sábado e domingo na capital mineira, após dois anos sem a realização do evento. As atrações foram do axé, passaram pelo rap e funk e chegaram aos games digitais. O público total que compareceu nas 24 horas de festa ainda não foi divulgado. 

Contudo, somente no show de Djonga, na Praça da Estação, no encerramento da Virada, a Polícia Militar estimou que cerca de 40 mil pessoas estavam no entorno da avenida dos Andradas. A reportagem do Hoje em Dia acompanhou algumas das centenas de intervenções programadas para a Virada no sábado à noite e durante o domingo. 

Em conversa com quem foi às ruas, o HD observou uma aprovação do aparato de segurança. Até a publicação desta matéria, não havia sido registrada nenhuma ocorrência criminal de destaque. “Até às 6h de domingo contabilizamos 42 ocorrências de furto. Os números de domingo ainda serão contabilizados, mas o balanço é extremamente positivo”, informou o tenente Abílio de Moura, do 1º Batalhão da Polícia Militar. 

O militar foi responsável por chefiar a dispersão do público na Praça da Estação nesse domingo. Ele explicou que as equipes da corporação atuaram de maneira diferente em cada período. No domingo de manhã, inclusive, a reportagem identificou que nenhuma equipe da PM foi vista nos arredores da Praça da Estação, Parque Municipal, avenida Assis Chateaubriand e Viaduto Santa Tereza. 

Por outro lado, no período da noite, durante o show do rapper Djonga, centenas de policiais se distribuíram pelo hipercentro para a dispersão da multidão. “Durante o dia e de madrugada o policiamento foi lançado à pé e, à noite, recebemos um reforço das equipes de Tático Móvel de outros batalhões”, explicou o tenente.

Polêmicas e manifestações

Assim como no Carnaval deste ano, o presidente Jair Bolsonaro foi alvo de protestos nas ruas da capital. Um dos momentos de maior tensão contra ele ocorreu durante o show de Djonga. Diversos gritos foram entoados pelo público. 

O rapper, entretanto, não comentou os protestos e brincou com a situação. “Parece que vocês não gostam muito desse homem aí que vocês estão falando o nome”. Na Gaymada, evento que reuniu o público LGBT na rua dos Guaicurus, o presidente voltou a ser alvo de críticas. 

Além disso, gritos contra a homofobia, misoginia e machismo foram ouvidos. Quem não passou imune às críticas do público foi Alexandre Kalil, prefeito de BH. Na sexta-feira, às vésperas da Virada Cultural, ele cancelou a “Coroação de Nossa Senhora dos Travestis”. O evento foi produzido pela Academia Transliterária e chegou a entrar na programação oficial. 

Contudo, após posicionamento contrário à apresentação emitido pela Arquidiocese de Belo Horizonte, o líder do Executivo municipal cancelou a intervenção. “Sou católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Fiquem tranquilos, ninguém vai agredir a religião de ninguém", afirmou Kalil. 

Apesar da negativa do prefeito, LGBTs que participaram da Gaymada fizeram a oração à Nossa Senhora dos Travestis. “Isso mostrou que o discurso do Kalil na parada LGBT não foi verdadeiro. É uma demonstração de que a política está pautada por interesses financeiros e institucionais”, lamentou o professor de Sociologia Thales Santos, de 30 anos. 

Faltou educação 

Apesar do empenho dos funcionários da SLU para manter a limpeza das ruas, a população não colaborou. A varrição dos garis não foi suficiente para limpar toda a sujeira de papéis, guimbas de cigarro, latas e garrafas de bebidas que se espalharam nas vias em que havia programação. 

Na Praça Rui Barbosa, na avenida dos Andradas, por exemplo, os gradis colocados pela PBH para proteger os jardins não foram suficientes. Algumas pessoas pularam as grades e muito lixo foi jogado sob a grama. Apesar disso, a avaliação foi positiva. “Eu achei tudo maravilhoso, a estrutura boa, muitos banheiros químicos, as atrações foram bem selecionadas”, elogiou a técnica em eletrônica Izabela Gulhães, de 30 anos. 

Para o bancário José Reinaldo Pimentel Santos, de 65 anos, eventos como a Virada Cultural devem ser expandidos. “Esse tipo de programa, que ocupa a cidade, tem que ser feito. Deveria existir não só na Virada, mas algo que se tornasse um programa de ocupação de praças, nesse sentido”, opinou.