O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), afirmou após reunião nesta terça-feira (7) com cerca de 100 entidades e o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 que não pretende recuar nas medidas de combate ao novo coronavírus e, com isso, cancelou o encontro marcado para esta quarta-feira (8) com empresários, que o pressionam pela reabertura da cidade.

De acordo com o prefeito, o cancelamento aconteceu porque nada será alterado no momento. "Suspendi agora a reunião que teria com os empresários amanhã, às 14h, porque eu não tenho o que dizer a eles. Os números não nos permitem nada diferente do que está acontecendo hoje", afirmou.

O prefeito de BH voltou a condicionar a flexibilização do comércio às taxas de contaminação e de ocupação dos leitos de UTI e de enfermaria na capital mineira. "A única coisa que eu tenho a dizer a todos é que nós tomamos um rumo. Nós acreditamos que a Terra é redonda. Então, o nosso rumo é o rumo da ciência, e a única contribuição do prefeito é a coragem. Eu garanto a vocês que enquanto esses números não nos derem a segurança da abertura, da flexibilização dessa cidade, nós continuaremos, primeiro, ajudando toda essa população carente, que são muito mais sofridos que os próprios comerciantes", ressaltou. 

Já o secretário de de saúde de BH, Jackson Machado, afirmou que a prefeitura segue analisando a proposta entregue por representantes do comércio de BH, na semana passada, que contempla um rodízio no funcionamento dos estabelecimentos na cidade. 

“O comitê se baseia no protocolo da Universidade de Havard que prevê períodos de flexibilização alternados com períodos de retração de atividades. E é isso que estamos fazendo. Independentemente de qualquer pressão”, disse.

Entre as reivindicações da reunião desta terça estão a defensa do isolamento social na capital mineira e, se necessário, o lockdown. O encontro aconteceu no Salão Nobre da prefeitura e contou com participação de associações, conselhos, diretórios, movimentos e sindicatos de diversos segmentos de BH.

Após o cancelamento da reunião desta quarta, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH) emitiu uma nota na qual criticou duramente a decisão da PBH. Segundo a entidade, a decisão foi tomada de forma autoritária e unilateral

Recuo

Desde o dia 29 de junho, apenas os serviços essenciais estão liberados para funcionar em Belo Horizonte. A explosão de casos, mortes e internações pelo novo coronavírus levou o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 recuar o processo de flexibilização da cidade

E este deve ser o cenário para as próximas semanas. Com a taxa de ocupação de leitos de UTI para pacientes com coronavírus em 91%, a tendência é que apenas os serviços essenciais continuem funcionando em BH.  

Lockdown 

De acordo com o Bruno Pedralva, secretário-geral do Conselho Municipal de Saúde (CMS-BH), o isolamento e, se necessário, o lockdown, são formas, neste momento, de evitar mortes.

“Assim que flexibilizou o comércio, aumentaram o número de casos em Belo Horizonte. Pessoas pegaram o coronavírus em função do aumento da circulação nas ruas. Então, a melhor forma de evitar mortes na capital é o isolamento social. Se for necessário, até mesmo o lockdown”, destacou Pedralva. 

Apesar do Conselho Municipal de Saúde recomendar o lockdown para evitar o colapso no sistema público em Belo Horizonte, o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 entende que ainda não é o momento para o fechamento total da cidade. 

“O lockdown está no nosso horizonte, mas não é o momento. A gente voltou a fase 0 no dia 29. Então, precisamos de um tempo para avaliar como tá sendo a evolução desse processo. Caso as medidas que estamos fazendo agora estejam evoluindo de forma desfavorável, podemos propor medida mais radical sim”, explicou o infectologista Unaí Tupinambas, membro do comitê. 

Confira as reivindicações das entidades que apoiam o isolamento social em BH:  
 
1) Apoiar às medidas mais contundentes de isolamento social como forma de prevenção à expansão da Covid-19 em BH, conforme critérios técnicos definidos pelo Comitê de Enfrentamento da PBH, inclusive ao “Lockdown”, se necessário;

2) Fortalecer medidas de combate à fome, miséria e desemprego para garantir os direitos humanos fundamentais;
 
3) Ampliar ao máximo o número de leitos de enfermaria e CTI disponíveis à população de Belo Horizonte para que pessoas não morram sem assistência adequada;
 
4) Garantir proteção à saúde às trabalhadoras e trabalhadores da saúde e condições adequadas de trabalho, considerando que compõem a linha de frente no combate à Covid-19;
 
5) Articular ações para proteção à saúde das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços essenciais de Belo Horizonte, em especial nos seus locais de trabalho e no transporte público;
 
6) Ampliar a testagem para todos os profissionais da saúde e todas pessoas com suspeita de infecção pela Covid-19 para um diagnóstico mais preciso da situação de saúde das pessoas, comunidades e da população de BH;
 
7) Instituir medidas para uso obrigatório de máscaras de proteção em espaços públicos, no transporte coletivo e estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços, mesmo diante dos vetos do presidente Bolsonaro à Lei Federal 14.019/2020 que exclui a obrigatoriedade em órgãos e entidades públicas e em estabelecimentos comerciais, industriais, templos religiosos, instituições de ensino e demais locais fechados em que haja reunião de pessoas.
 
8) Proteger as usuárias e usuários do SUS BH em seus direitos sexuais e reprodutivos, com reorganização da atenção à saúde da mulher, ações efetivas de atenção pré-natal nas UBS, continuidade de atendimento de planejamento reprodutivo e abertura da Maternidade Leonina Leonor, tendo em vista a necessidade de evitar a contaminação e as mortes maternas por Covid-19 nos hospitais gerais.
 
9) Atualizar de modo permanente os protocolos e as orientações técnicas para abordagem às pessoas com a Covid-19 e à própria doença, sempre amparados nas melhores evidências científicas disponíveis, dentro dos diversos serviços de saúde da cidade.
 
10) Qualificar o planejamento urbano para acolher  a população sem teto; garantir durante a pandemia  a  continuidade do acolhimento e da assistência integral   às pessoas  em sofrimento mental e a usuários de álcool  e outras drogas,   sempre  em serviços abertos, efetuando para isso  melhorias e adequações necessárias na Rede de Atenção Psicossocial  do município para proteção de usuários e trabalhadores contra a Covid-19; ampliar casas de acolhida e medidas de proteção  a mulheres e crianças em situação de violência doméstica, pessoas em situação de rua e idosos .