Tragédia de Capitólio era previsível, avalia especialista; turista já havia informado Defesa Civil

Bernardo Estillac
bernardo.leal@hojeemdia.com.br
12/01/2022 às 19:42.
Atualizado em 18/01/2022 às 00:53
 (Divulgação/CBMMG)

(Divulgação/CBMMG)

A tragédia de Capitólio, no Centro-Oeste de Minas, poderia ter sido evitada com uma vistoria técnica no local de onde a rocha se desprendeu do paredão do cânion no Lago de Furnas, no último sábado (8), matando 10 pessoas. De acordo com o professor do departamento de Geografia da UFMG, Luiz Fernando Barros, imagens antigas do local já demonstravam o risco iminente de desabamento

Barros explica que o quartzito, formação rochosa predominante no Lago de Furnas, é bastante quebradiço e tem muitas fraturas como condição natural. Uma análise geológica da região poderia avaliar quando essas rupturas se cruzam, formando blocos mais propensos à queda.

O professor da UFMG afirma que não é comum que fragmentos tão grandes como o que se desprendeu no sábado (8) caiam, mas isso não significa que o risco não possa ser previsto.

“Nesse caso, pessoas já publicavam imagens na internet em que era possível visualizar uma fissura muito grande, indicando que aquele fragmento do paredão já estava se desprendendo. É difícil prever o momento exato em que vai acontecer, mas era possível evitar o risco, até mesmo com um medida preventiva direta, removendo a rocha de forma controlada”, afirma.

Alguns vídeos produzidos por pessoas que presenciaram a tragédia permitem a identificação da fissura apontada pelo especialista.

Luiz Fernando Barros acrescenta que a fiscalização geológica da região é de responsabilidade da prefeitura. Em entrevista coletiva no domingo (9), o prefeito de Capitólio, Cristiano Silva (PP), disse que não havia nenhum tipo de análise de risco no local da tragédia e que seria injusto cobrar a previsão do ocorrido. O governador Romeu Zema (Novo), corroborou as declarações do prefeito.

Percepção dos turistas
A preparação de turistas para perceber riscos envolvendo passeios na natureza é importante para evitar acidentes, comenta o professor Luiz Fernando Barros

"Quando a gente fala em situação de risco, de uma maneira geral, a consciência do risco é um dos principais fatores relacionados à vulnerabilidade. Se a pessoa tem consciência do risco ela é muito menos vulnerável. Independente da atividade de turismo, do local e de suas características, é preciso que haja uma conscientização”, comenta.

O caso da engenheira de minas Carolina Takano, 30, pode ser apontado como um exemplo. Ela viajou a passeio para o Lago de Furnas em janeiro de 2019 e percebeu que as rochas dos cânions representavam riscos para os turistas.

“Além de instáveis no paredão, tinham muitos blocos caídos no chão. No momento em que eu vi aquilo, falei para o condutor da lancha parar. Ele respeitou e não foi perto, mas eu lembro que havia várias lanchas pertinho do paredão”, conta.

Assim que retornou de viagem, Carolina procurou o contato da Defesa Civil estadual para relatar o risco de desabamento de rochas no cânion. O registro, feito no dia 28 de janeiro de 2019, foi respondido de forma protocolar pelo órgão, veja:

Prezada,Agradecemos o contato, a demanda será repassada à nossa equipe técnica.Atenciosamente,Gabinete Militar do Governador e Coordenadoria Estadual de Defesa Civil.

A reportagem perguntou à Defesa Civil sobre o processo de vistorias do órgão e como as denúncias são tratadas pela equipe técnica. Até a publicação desta matéria, não houve resposta.

A prefeitura de Capitólio também não respondeu a respeito do histórico de mapeamento de risco geológico na região do Lago de Furnas.

Investigação
A tragédia de Capitólio está sendo investigada pela Polícia Civil de Minas Gerais, pela Marinha do Brasil e pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG).

O MPMG solicitou informações à administração de Capitólio nesta quarta (12). O município tem 5 dias para esclarecer se havia informações sobre o risco para turistas e se existe um mapeamento e identificação das áreas propensas a deslizamentos, desabamentos e inundações bruscas, além de um plano de emergência para desastres.

A Polícia Civil informou que testemunhas estão sendo ouvidas e a investigação segue em andamento.

A Marinha do Brasil não respondeu à solicitação do Hoje em Dia sobre informações do inquérito.

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